1/5/08
Qualidade e quantidade: eis uma questão
De fato, a meu ver, não existe avaliação quantitativa. Avaliação, por ser avaliação, é qualitativa. O termo avaliação provém de dois componentes latinos — “a” e “valere” —, que juntos querem dizer “atribuir valor a alguma coisa”, ou seja, atribuir qualidade a alguma coisa.
Há tempos atrás, em meus escritos, defini avaliação como “um juízo de qualidade sobre dados relevantes, para uma tomada de decisão”. Essa definição explicita os elementos constitutivos de um processo de avaliação, ou seja, “um juízo de qualidade” significa atribuir qualidade a alguma coisa. Aquilo a que atribuímos qualidade são dados da realidade. No caso da aprendizagem, são dados do desempenho do estudante na sua aprendizagem dos conteúdos; são dados da realidade de sua aprendizagem. A depender das características que essa aprendizagem, nós lhe atribuímos esta ou aquela qualidade. Assim, a um estudante que manifeste um desempenho satisfatório em noventa por cento de suas experiências e lhe atribuo uma qualidade de “satisfatório”, mas a um estudante que atinge somente dez por cento das aprendizagens possíveis, eu lhe atribuo uma qualidade de “insatisfatório”. Foram os dados da realidade do aprendido que me permitiram fazer o juízo de qualidade ou a atribuir a essa experiência a tal qualidade.
Os “dados relevantes da realidade” sobre os quais nos atribuímos uma qualidade são dados essenciais daquela realidade, tendo em vista o fim que estamos buscando. Para avaliar a aprendizagem de um educando em adição com números inteiros, devo coletar dados somente sobre isso. Seria irrelevante, para essa finalidade, eu coletar dados sobre seu desempenho em fatoração, por exemplo. Uma coisa não tem direta e imediatamente a ver com a outra. Neste momento específico, interessa-me adição. Em outro poderá interessar-me fatoração, ou os dois conteúdos ao mesmo tempo. Relevante é aquilo que é essencial para produzir o juízo de qualidade, neste momento.
“Para uma toma de decisão” expressa a idéia de que o ato de avaliar subsidia as decisões de melhoria dos resultados. O ato de avaliar só faz sentido se ele tem esse objetivo. Caso não desejemos melhorar o desempenho do estudante, não vale à pena avaliá-lo. Isto do ponto de vista da avaliação, mas, do ponto de vista do exame, sim, devido ao fato de que ao examinador não interessa melhorar o resultado do desempenho do educando, mas sim em sua classificação a parir daquilo que ele já conseguiu aprender. Interessa o que ele já conseguiu e não a soma daquilo que ele já conseguiu com aquilo que ele pode conseguir ainda. Ao contrário, o avaliador tem interesse em melhorar aquilo que ele já adquiriu. O avaliador está voltado para o futuro.
Assim sendo, o ato de avaliar trabalha com a qualidade atribuída por sobre um desempenho que se manifesta com características quantitativas, ou seja, sobre um determinado montante de aprendizagem atribui-se uma qualidade.
Com essa compreensão, importa observar a confusão que ocorre quando dizemos “avaliação qualitativa” e “avaliação quantitativa”. De fato, essa distinção não existe, na medida em que avaliação é somente qualitativa, devido apresentar-se como atribuição de qualidade a partir de determinadas características da realidade.
De onde vem a confusão dessa terminologia? A Lei de Diretrizes da Educação Brasileira, conhecida como 5692/71, trouxe em seu bojo a seguinte definição: “na aferição do aproveitamento escolar, deve-se levar em consideração a qualidade sobre a quantidade”. A partir dessa configuração, os educadores entenderam que a qualidade se referia aos aspectos afetivos do educando e quantidade aos aspectos cognitivos. Essa é a distorção.
De fato, o legislador entendia por “qualidade” o aprofundamento e o refinamento da aprendizagem. Por exemplo, dois estudantes aprendem um mesmo conteúdo, porém um deles se destaca mais que outro na expressão da qualidade (aprofundamento, refinamento) do aprendido; este terá uma qualidade superior em relação ao outro.
No cotidiano, ocorrem coisas assim: tenho dois pratos, ambos de feitos de porcelana, porém um é grosseiro na sua forma e o outro é de fino acabamento.. Ambos são pratos, porém apresentam qualidades diferentes; um é mais refinado que o outro. Na aprendizagem, ocorre a mesma coisa: a aprendizagem sobre uma determinado conteúdo poderá ser mais (ou menos) refinada. A lei entendeu que “predomínio da qualidade sobre a quantidade” refere-se ao aperfeiçoamento da aprendizagem, ao refinamento, como vimos sinalizando, porém os educadores entenderam de forma distorcida essa proposição da lei e assumiram “qualidade” como o lado afetivo e, como “quantidade”, o lado cognitivo da conduta do educando.
De fato, também os atos afetivos são qualificados a partir da freqüência (quantidade) com que essa conduta é praticada. Um sujeito que, em uma única ocasião, manifesta-se respeitoso do outro, mas, em 99 outras, ele se manifesta desrespeitoso, nós não lhe atribuímos a “qualidade” de respeitoso, pois que, nas inúmeras vezes que foi observado, desrespeitou os colegas. O contrario também é válido, ou seja, um educando que, em 100 ocasiões, por 99 vezes foi respeitoso e, em uma única, foi desrespeitoso, atribuímos-lhe a qualidade de “respeitoso”. Então, a qualidade é atribuída a partir de uma quantidade de vezes que observamos aquela determinada conduta sendo praticada, seja ela cognitiva, afetiva ou psicomotora.
Por outro lado, importa observar que os atos cognitivos, praticados por um estudante, já tem dentro de si um componente afetivo. Ninguém aprende bem matemática se não tiver uma boa atração por ela. Ninguém aprende religião se não estiver afetivamente aberto para ela. Ninguém aprende a gostar de feijão se não tiver a aceitação de seu sabor, ninguém aprende a falar uma língua estrangeira se não for motivado para ela. Assim sendo, o cognitivo exige um afetivo favorável a ele. O componente afetivo é um portal, que permite ou não, o ingresso em qualquer outra área da conduta humana. Caso a afetividade não seja positiva em relação a alguma conduta, a aprendizagem não se dará satisfatoriamente.
Deste modo, caso um estudante apresente um bom desempenho cognitivo em uma determinada área, temos que admitir que sua afetividade é favorável, aberta a essa aprendizagem. Na vida, tudo passa pelo crivo emocional dos nossos afetos; nós nada fazemos sem o crivo afetivo.
Importa observar, é claro, que poderemos qualificar atos que são predominantemente afetivos. Os Planos Curriculares Nacionais definiram as aprendizagens em cognitivas, procedimentais e atitudinais, As condutas atitudinais são predominantemente afetivas, e elas podem ser qualificadas por elas mesmas, ainda que o cognitivo também esteja predominantemente presente. Ninguém ama, sem “saber amar”, ninguém “respeita o outro“ sem “saber respeitá-lo”. Os atos afetivos também têm uma nuança cognitiva. O afeto também tem uma elaboração, uma compreensão mental. Assim sendo, os nossos atos são permeados pelo cognitivo, pelo afetivo e pelo psicomotor, ao mesmo tempo.
Em avaliação da aprendizagem, necessitamos de aprender a olhar nosso educando como um todo e, então, aprenderemos que a qualidade de um ato, cognitivo, afetivo ou psicomotor, tem a ver com seu refinamento, com seu aprofundamento e foi isso que o legislador quis nos dizer quando colocou na lei que, “na aferição do aproveitamento escolar, deve levar em conta a qualidade sobre a quantidade”.
Cipriano Luckesi
criado por bahi0728
13:55 — Arquivado em: 

Comentário por Cacia Rehem — 7 de maio de 2008 @ 22:58
Oi professor, quero informar que tô sumida, mas continuo lendo o blog, parei para o sr. esquecer de mim(risos) mas to sempre por aqui e mandei para toda a minha lista de colegas, a maioria já me respondeu dizendo que tá fazendo as leituras e que o Blog tá ótimo.
Abraços
Comentário por Josete — 19 de maio de 2008 @ 10:18
Olá Professor Luckesi !
Estava procurando uma referência em avaliação e encontrei esse maravilhoso blog! Muito obrigada por torná-lo disponível! Linkei no meu blog sobre Informática Educativa. Abraço
Josete
Comentário por Luis Hipolito @ The Blogger — 13 de junho de 2008 @ 0:09
Tudo bem professor? Fui seu aluno na UEFS onde me graduei
em Administração. É um prazer saber que o sr. também é blogueiro e estarei sempre acessando seu blog. Postei um link
em minha blogosfera. Um grande abraço!
Comentário por Maria do Carmo Ribeiro Abreu — 20 de junho de 2008 @ 13:35
Prezado Prof. Luckesi,
Eureka! Sempre pensei a concepção da avaliação na linha da explicitação que o Senhor argumenta. No entanto , ainda não consequi a adesão dos meus colegas para pensar comigo. Agora, com o texto do Senhor posso convencê-los.
Obrigada!
MCarmo
Comentário por RITA ELISABETH — 31 de julho de 2008 @ 10:56
Sou licenciada em Norma Superior e professora de Educação Infantil. Gosto de acompanhar o desenvolvimento diário dos meus alunos sem a preocupação de avaliá-los de acordo com o sistema escolar, observo usas ações e tento ajudá-los a descobrir o gosto pela leitura e escrita, por meio de atividades prazerosas para a faixa etária da turma.Obrigada, Elisabeth
Comentário por Cipriano Luckesi — 2 de agosto de 2008 @ 9:30
Maria do Carmo ribeiro,
De fato, para que seus colegas mudem de conduta, eles necessitam de abrir-se para isso. e, para tanto, importa que emocionalmente eles se disponam a mudar.
Isso demanda um tempo. Importa não desistir. Estou há quarenta anos trabalhando com esse tema e não desisti. Desse modo, junto com outros educadores, creio que já contribui bastante para a abertura dos educadores para a prática avaliativa. Ainda continuarei nela.
Um abraço e sucesso em sua vida
Cipriano Luckesi
Comentário por Cipriano Luckesi — 2 de agosto de 2008 @ 10:04
Rita Elisabeth,
É óbvio que você prática a avaliação, caso contrário, não faria nenhuma intervenção para a melhoria dos resultados. Avaliar é dianostivar e intervir. A descrição do seu modo de agir indica que você faz isso. Observa (descreve) o que ocorre com seus educandos; qualifica o que observa em “satisfatório” ou “insatisfatório”, e, dai, propõe novas ações. O que você não faz é utilizar os recursos propostos pela escola para descrever a conduta dos seus educandos. Somente isso, mas isso, por si, não caracteriza um ato de avaliar. Isso tem a ver exclusivamente com o tipo de recurso que você utiliza para deescrever o desempenho dos estudantes, que equivale ao primeiro passo do ato de avaliar.
Sucesso e sua vida.
Cipriano Luckesi
Comentário por Aristeu Adão Duarte — 1 de abril de 2009 @ 17:42
Prof. Luckesi:
Que felicidade encontrá-lo na Internet!
Você é o marco fundamental de minhas experiências sobre avaliação. Desde os anos 80, cara.
Trabalho atualmente na área de Coordenação de Estágio-Licenciaturas nas Faculdades Integradas de Itararé. Assim, vou aprender muito mais e contribuir na qualidade do estágios.
Estive com você ultimamente em Ponta Grossa (PR) NUM SEMINÁRIO DE EDUCAÇÃO. Na oportunidade estavam presentes educadores da UNICAMP.
Que bom! Hoje eu estava procurando algumas respostas para a chamada avaliação qualitativa e seus artigos do Blog me trouxeram luzes! Muito Obrigado, Mestre! Abraços. Aristeu.